Gatos no telhado - Um conto de Leandro Mendes

O telhado parecia que iria desabar. Cada estrondo soava como se bolas de canhão estivessem atingindo a laje, e os berros dos gatos eram cada vez mais grotescos.

​— Espanta aqueles gatos, amor.

​Minha esposa teria um dia difícil no dia seguinte.

​Levantei-me, ainda meio tropeçando; nem tinha encontrado meu chinelo no escuro quando mais um baque assustador ecoou no assoalho da sala. Parecia uma pessoa caindo. Peguei um rodo e bati no teto.

​— VAI BRIGAR EM OUTRO LUGAR, GATAIADA!

​— Amor, vai acordar o neném.

​Tínhamos um filho de dois anos chamado Paulo, e no dia seguinte estávamos a caminho do hospital para o nascimento de sua irmãzinha. Quando eu era pequeno e morava com meus pais, gostava de bichos de estimação — gatos, cachorros, galinhas e peixinhos. Mas, depois que cresci, me casei e tive filhos, percebi que ter animais de estimação era inviável; vi o tamanho dos gastos e concluí que não compensava para mim.

​Contudo, gato não é um bicho de estimação qualquer. Eles não foram domesticados, por mais que a humanidade acredite nisso; eles é que escolhem viver com você, "mesmo sem você querer". Há algum tempo, uma família de gatos resolveu habitar a laje da nossa casa. O grande problema é que eles brigavam muito entre si.

​Bati mais uma vez, forte, na laje, torcendo para que resolvesse.

​— SAI DAÍ, GATAIADA!


​De repente, um enorme gato castanho-escuro pulou pela janela aberta. Subiu na mesa e ficou me encarando com seus grandes olhos amarelos. Fiquei sem reação. Já ouvira histórias de gatos atacando seres humanos, mas ainda segurava o rodo. Não sentia medo; precisava defender minha família. Lembrei de quando eu era pequeno e o encarregado de cuidar da casa era meu pai, matando morcegos e ratos enquanto eu e meu irmão ficávamos com minha mãe no quarto. Agora, eu assumia o manto de guerreiro.

​O rodo era minha única arma. Levantei-o devagar, para não aterrorizar o bicho.

​— Ora, por favor... acha mesmo que vai me espantar com um rodo?


​A voz grave me paralisou. Eu ainda não tinha certeza, mas parecia que o som tinha saído do próprio gato. O felino começou a crescer e seu pelo se transformou em um elegante terno azul-escuro; os bigodes deram lugar a uma barba muito bem-feita e alinhada. O homem se levantou da mesa e se aproximou de mim com a mão estendida.

​— Muito prazer. Eu sou o Sr. Roberto Leônidas. Sim, o sobrenome vem dos meus parentes próximos.

​Afastei-me, assustado, ainda sem conseguir articular uma palavra sequer.

​— Sei que parece um absurdo, mas nós, gatos, temos essa habilidade. Adquirimos esse dom há milhares de anos, mas o mantemos em segredo dos humanos.

​— Isso não é possível...

​Levantei-me com a intenção de correr para o quarto, pegar meu menino e minha esposa e fugir de toda aquela loucura. Acho que meu pai nunca enfrentou algo assim.

​— Não precisa correr, isso não vai durar muito tempo. Preciso apenas acabar com um reinado absurdo na sua laje e voltaremos a ser como sempre fomos.

​Ele estendeu a mão novamente.

​— Tem um rei na minha laje?

​— É outro gato gagá que não quer largar o governo.

​Mais quatro felinos apareceram na janela, com traços mais finos.

​— Já está vindo, querido?

​Uma voz muito sensual ecoou da gata preta. Da mesma forma, elas se transformaram em quatro mulheres muito atraentes, todas vestindo trajes de gala. Uma moça negra, de cabelo curto e vestido longo vermelho, destacou-se entre as outras. O homem segurou a mão dela e beijou.


​— Já estou indo, minha linda. Só estou explicando ao nosso anfitrião o problema da nossa cruzada.

​As outras três gatas, que pareciam mais novas, tocaram no ombro da mais velha.

​— Mas não podíamos ser vistos...

​Roberto interveio:

​— Neste caso extremo, não vejo mal em acalmar nosso anfitrião. Só precisamos tomar o poder, destronar o velho gato e nunca mais apareceremos.

​— Então você nunca mais vai aparecer aqui?

​— Só como gato. É a nossa lei.

​Apertei a mão dele com um pouco de receio.

​— Obrigado.

​Os quatro viraram de costas para mim. Pude ouvir a gata dizer:

​— Você é louco, Roberto.

​Todos riram antes de se transformarem de volta em gatos e pularem a janela. Sentei-me no sofá e voltei a ouvir as batidas na laje. Agora, eu compreendia a grande batalha que estava acontecendo lá em cima. Estariam ganhando ou perdendo?


​Quando ouvi um grito estridente de um gato, levantei-me rápido e deu tempo de ver os cinco felinos pulando o muro, literalmente com o rabo entre as pernas. A tomada de poder não deu certo. Vi ainda um grande gato cinza saltar para o quintal, transformar-se em um homem grisalho de terno branco e fazer um sinal de silêncio para mim.

​Entendi a mensagem e voltei para a cama. Amanhã, o dia seria cheio.

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