Nova Esperança um conto de Leandro Mendes
O GPS havia morrido duas horas atrás, logo depois que pegamos aquele desvio mal sinalizado para fugir do congestionamento da rodovia principal. Na cabine da caminhonete, o clima de férias ainda resistia, mas a tensão já começava a se desenhar nos detalhes. No banco do carona, Mirela mantinha os olhos fixos no mapa de papel aberto sobre o colo, os dedos longos e adornados com anéis de prata batendo de leve no painel, tentando disfarçar a preocupação atrás de um sorriso encorajador. Atrás, nossa filha de treze anos, Iana, com os fones de ouvido pendurados no pescoço, havia abandonado a tela do celular — há muito tempo sem sinal — para encarar a paisagem seca que passava pela janela.
Eu, Dante, segurava o volante com mais força do que o necessário. A caminhonete velha cortou a última curva da estrada de terra, e foi aí que a realidade se impôs, esmagando qualquer ilusão de que encontraríamos um posto de combustível ou um hotel de beira de estrada para passar a noite. O horizonte, que antes era uma linha infinita de poeira e mato retorcido, de repente deu lugar à silhueta de uma pequena cidade. Mas o letreiro de metal caído na entrada, onde mal se lia o nome Nova Esperança, parecia uma piada cruel de quem quer que tivesse fundado aquele lugar.
A cidade estava completamente desolada. Do topo da colina, antes de iniciarmos a descida, o panorama que se revelava era o de um cemitério de concreto e madeira. Não havia fumaça subindo de nenhuma chaminé, nenhum movimento de carros, nenhuma roupa estendida nos varais. Apenas o calor sufocante do meio-dia que distorcia o ar, fazendo as construções parecerem fantasmagóricas, tremulando sob o sol impiedoso.
— Tem certeza de que isso é uma cidade, pai? — a voz de Iana quebrou o silêncio da cabine, soando mais jovem e vulnerável do que ela gostaria de admitir.
— Deve ser só um vilarejo antigo, querida. Vamos dar uma olhada, ver se achamos alguém para pedir informação — respondi, tentando manter o tom de voz firme e paternal, o tom de quem tem o controle da situação, embora meu estômago estivesse se contraindo. Olhei de relance para Mirela; ela apertou minha mão, os olhos castanhos cheios de um aviso silencioso.
À medida que o veículo avançava lentamente pela avenida principal, o silêncio da rua se tornava quase físico, um peso opressor que abafava até o ronco do motor da caminhonete. Placas de ferro retorcidas batiam compassadas contra os postes, tocadas por um vento seco e quente que carregava cheiro de ferrugem, poeira e terra morta.
O cenário ao nosso redor era de uma destruição sistemática e violenta. As janelas das casas estavam todas estilhaçadas, restando apenas dentes de vidro moldando os batentes escuros. Fachadas inteiras de sobrados e comércios exibiam cicatrizes negras de incêndios que o tempo e a chuva já haviam apagado pela metade. Mas o que mais causava calafrios eram as portas. Não havia uma única porta inteira em toda a extensão da rua. Todas, sem exceção, estavam rebentadas para dentro, arrombadas com uma força brutal, escancaradas como bocas banguelas clamando por um socorro que nunca veio.
Reduzi a velocidade, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas. Aquilo não parecia uma cidade evacuada por um desastre natural ou pelo êxodo rural. Aquilo parecia ter sido saqueado. Destruído de propósito.
Estacionamos diante do que parecia ter sido o principal mercado do lugar, um prédio de alvenaria com o letreiro desbotado. A poeira da estrada subiu, envolvendo a caminhonete como uma névoa densa, e assentou devagar enquanto desligávamos o motor. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Cada movimento nosso parecia barulhento demais.
— Fiquem no carro — instruí, engolindo em seco e checando por instinto o volume do rádio, que chiava sem sintonizar nada.
— Eu vou com você — Mirela disse imediatamente, segurando meu braço. Dava para ver o medo em seu rosto, mas também a determinação de não me deixar sozinho.
— Não, fiquem trancadas. Eu só vou até a entrada daquele mercado ver se há alguma alma viva ou um telefone fixo. É rápido.
Peguei o .38 que tinha no porta-luvas do carro. É melhor ter e não precisar.
Abri a porta. Cada passo que meus pés davam no asfalto rachado ecoava alto demais na rua deserta, como se eu estivesse profanando um túmulo ao ar livre. O vazio nos cercava por todos os lados, mas a sensação nítida, incômoda e arrepiante de que estávamos sendo observados por aquelas janelas mortas e portas arrombadas fazia o pelo dos meus braços se arrepiar. Olhei para trás uma última vez, vendo os rostos de minha esposa e de minha filha me vigiando através do vidro fumê da caminhonete, antes de caminhar em direção à escuridão da entrada do mercado.
A escuridão no interior do mercado era densa, um contraste violento com o sol implacável lá fora. O ar cheirava a mofo, poeira antiga e ao azedo de produtos apodrecidos há anos. Meus olhos demoraram alguns segundos para se ajustar à penumbra. Prateleiras de metal retorcidas bloqueavam os corredores, e o chão estava forrado por uma camada cinzenta de sujeira e estilhaços de vidro que estalavam sob as minhas botas.
Mantive a mão direita firme na coronha do .38, o peso do metal no meu bolso trazendo um falso conforto.
— Tem alguém aí? — minha voz soou estranha, engolida pelo teto alto do galpão. — Preciso de ajuda. Minha família está no carro.
Nenhum som. Dei mais três passos, aproximando-me de um balcão de madeira escura, cuja superfície exibia marcas profundas de machadadas. Bati com os nós dos dedos na madeira. O som ecoou até os fundos do estabelecimento vazio.
— Por favor… — insisti, limpando o suor da testa com a manga da camisa. — Só precisamos de informação.
De trás de uma pilha de caixas tombadas nos fundos, um vulto se moveu. Meu coração deu um salto no peito, e a pistola quase saiu do bolso por puro instinto. Uma figura franzina, vestida com trapos cinzentos que se misturavam à poeira, emergiu da escuridão. Era uma senhora idosa. Seus cabelos eram tufos brancos e desgrenhados, e a pele de seu rosto parecia pergaminho seco, moldada por rugas de puro terror. Seus olhos, injetados e desproporcionalmente grandes, fixaram-se em mim.
— Você quer… algo? — a voz dela era um sussurro rouco, arrastado, como se ela estivesse desaprendendo a falar.
Dei um passo para trás, o estômago despencando. Por um segundo terrível, achei que estivesse olhando para um fantasma, uma assombração deixada para trás para guardar as ruínas. Minha espinha congelou.
— Meu Deus… — recuperei o fôlego, baixando a guarda por um instante. — Senhora? O que aconteceu com este lugar? Cadê todo mundo?
A velha deu um passo trêmulo na minha direção, estendendo uma mão esquelética. Ela abriu a boca para responder, os lábios rachados movendo-se sem emitir som por um breve momento, preparando-se para desenterrar o segredo daquela cidade.
Mas ela nunca teve a chance.
O chão sob nossos pés vibrou sutilmente. Um milésimo de segundo depois, o silêncio de Nova Esperança foi estraçalhado por um eco grave, um ronco mecânico e ensurdecedor que rasgou o ar como um trovão. Motores. Muitos motores, roncando em uma sinfonia violenta e cadenciada que fazia os restos de vidro no chão dançarem.
Os olhos da idosa se dilataram a um ponto sobre-humano. O pavor transformou suas feições.
— Eles voltaram! — ela arquejou, soltando um gemido agudo de puro pânico.
Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, a velha girou nos calcanhares e correu de volta para a escuridão dos fundos, desaparecendo entre as caixas como se fizesse parte das sombras.
— Espere! — gritei.
No segundo seguinte, o som dos motores lá fora atingiu o ápice com uma freada brusca. Mas o que me fez congelar foi o som que cruzou o asfalto e invadiu o mercado: o grito agudo de Iana. Um grito de puro terror.
O pânico me atingiu como um soco no estômago. Girei e corri em direção à saída, os estilhaços de vidro voando sob meus pés. Passei pela porta arrombada, os olhos semicerrados contra a claridade súbita do sol, empunhando o .38 com as duas mãos, pronto para o pior.
A caminhonete estava cercada por três motocicletas enormes e barulhentas. Mirela e Iana ainda estavam trancadas lá dentro. Através do vidro fumê, eu conseguia ver o pavor estampado no olhar das duas; elas estavam encolhidas, os olhos arregalados, assistindo à cabine ser sombreada por figuras massivas.
Três homens imensos haviam descido das motos. Eram gigantescos, com barbas trançadas, cabelos compridos e jaquetas de couro gastas sobre ombros tão largos que pareciam muralhas de pedra. Pareciam vikings saídos de um pesadelo moderno, exalando cheiro de gasolina e suor.
No momento em que meus pés pisaram na calçada, o movimento deles congelou. Devagar, quase em câmera lenta, os três brutamontes viraram as cabeças pesadas na minha direção. Seus olhares, frios e carregados de uma malícia ancestral, fixaram-se direto em mim.
Eles não recuaram diante da arma na minha mão. Em vez disso, o líder do bando, um sujeito com uma cicatriz que dividia a sobrancelha, abriu um sorriso largo, revelando dentes amarelados. Ele começou a rir. Uma gargalhada alta, zombeteira, que parecia ecoar por todas as janelas mortas daquela cidade desolada. Os outros dois o acompanharam, encarando o cano do meu revólver como se fosse nada mais do que um brinquedo inofensivo.
O riso deles era um insulto à minha existência. Olhei para o lado e vi o rosto de Mirela colado ao vidro da caminhonete, as mãos cobrindo a boca, enquanto Iana chorava encolhida no banco de trás. Aquilo me deu a coragem cega que só um pai desesperado consegue encontrar.
Firmei os pés no asfalto rachado, estendi os braços e mirei o .38 direto no peito do líder que dava um passo na minha direção.
— Afastem-se do meu carro! — gritei, a voz falhando no final.
A resposta dele foi dar mais um passo, a bota pesada esmagando um pedaço de entulho. O sorriso zombeteiro nem sequer vacilou. Ele não tinha medo.
O pânico tomou o controle dos meus dedos. Puxei o gatilho.
O estrondo do primeiro disparo cortou o ar abafado de Nova Esperança. A bala atingiu em cheio o centro do peito do gigante. Vi o impacto rasgar o couro da jaqueta dele. Mas ele sequer cambaleou. Puxei o gatilho mais uma vez, e depois mais uma. Três tiros. Três detonações ensurdecedoras que ecoaram pelas paredes das casas abandonadas. Os projéteis perfuraram a carne, mas não houve sangue, não houve dor, não houve recuo.
O monstro parou por um breve segundo, olhou para os furos fumegantes em seu peito e voltou a erguer os olhos para mim. Sua gargalhada ficou ainda mais alta, uma risada cavernosa e desumana que parecia zombar da própria física. Os outros dois vikings atrás dele se acabavam de rir, apontando para o cano do meu revólver. Armas não os metiam medo. Eles continuavam se aproximando como se os tiros fossem nada mais do que gotas de chuva de verão.
— Saia do caminho, homenzinho inútil — a voz do líder ressoou como um trovão, carregada de um deboche que me reduziu a pó.
Eles avançaram. Eu travei. Meu corpo inteiro tremia, o revólver agora inútil pesando uma tonelada na minha mão. Esperava o impacto, esperava ser esmagado ali mesmo no chão, mas o horror foi ainda mais humilhante: eles simplesmente passaram por mim. Um deles me deu um esbarrão de ombro que me jogou contra a calçada, mas continuaram marchando, ignorando a minha existência como se eu fosse um inseto incômodo. Eles passaram direto e entraram no estabelecimento, no mercado escuro onde a velha havia se escondido.
O terror cedeu lugar ao puro instinto de sobrevivência. Olhei para a caminhonete. A porta do motorista, que eu havia deixado encostada, estava aberta.
Corri. Corri como nunca havia corrido na vida, o coração batendo na garganta. Despenquei para dentro da cabine, bati a porta e passei a trava elétrica. Mirela me olhava com os olhos arregalados, em choque, enquanto os prantos de Iana ecoavam no banco de trás.
Girei a chave na ignição. O motor da caminhonete tossiu, hesitou por um segundo eterno, e finalmente rugiu, ganhando vida.
Fiquei estático com o pé no freio, as mãos coladas ao volante, suando frio. Olhei para la fachada escura do mercado. Esperei. Esperei ouvir os gritos da velha senhora, o som de destruição ou as gargalhadas dos monstros ecoando lá de dentro. Mas nada ouvi. O silêncio que engoliu o mercado era absoluto, espesso e aterrorizante.
Uma onda avassaladora de covardia e vergonha inundou meu peito. Eu era o homem da família, o protetor, e estava ali, parado, prestes a fugir. Mas o olhar de pavor da minha filha no retrovisor me trouxe de volta. Eu não podia vencer aquilo. Ninguém podia.
Não esperei mais nenhum segundo. Afundei o pé no acelerador.
A caminhonete deu uma arrancada violenta, os pneus cantando e levantando uma nuvem densa de poeira que cobriu a fachada do mercado. Deixamos Nova Esperança para trás pelo mesmo caminho de terra, correndo daquele pesadelo a toda velocidade.
Enquanto a silhueta da cidade desolada sumia no retrovisor, as lágrimas finalmente desceram pelo meu rosto. Uma queimação de vergonha por não ter feito nada, por ter deixado aquela senhora e aquela cidade para trás à mercê dos monstros. Mas, enquanto encarava a estrada deserta à minha frente, uma pergunta martelava na minha mente, tentando acalmar a minha culpa: o que, afinal de contas, eu poderia fazer contra aquilo?
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