Liberdade - Um conto de Leandro Mendes

Liberdade

​Acordei com o sol quente queimando minha pele. O suor escorria sem parar, misturando-se à poeira do chão de terra onde eu havia dormido — ou desmaiado — na noite anterior. Meus pés descalços ainda latejavam; a corrente presa ao tornozelo incomodava agora que o sangue havia esfriado e a adrenalina baixado.

​Eu tinha medo de abrir os olhos e descobrir que ainda estava na jaula. Mas eu precisava abrir. Tinha que me levantar. Se ficasse parado, seria fácil ser capturado de novo. Eu já tinha experiência nisso; falhara nas duas tentativas anteriores. Se me pegassem dessa vez, talvez não houvesse uma próxima chance de escapar.

​Levantei-me e encarei o horizonte seco da caatinga. As árvores pequenas, com seus troncos retorcidos, pareciam sofrer tanto quanto eu. Meu pai dizia que aquela paisagem lembrava nossa terra natal, do outro lado do oceano. Comi um ingá que trazia na bolsa, bebi um pouco da água da botija amarrada à cintura e recomecei a correr.

​Dessa vez eu estava preparado. Aprendi que não se foge apenas com as pernas, mas com o estômago. Na última fuga, a fome e a sede me entregaram. Agora, eu levava frango e frutas que Maria das Graças me ajudara a pegar na cozinha. Maria era minha mulher. Chamei-a para vir comigo, mas ela não acreditou que eu conseguiria. Como escrava de casa, cozinhando para a família do Senhor Jonas, ela achava que tinha uma "vida boa". Eu, que plantava mandioca e cuidava do gado sob o chicote do Sinhozinho e o olhar severo de Dona Mônica, sabia que não havia vida boa sem liberdade.

​Desta vez, eu já estava há dois dias em fuga. Nunca tinha ido além do Vale dos Ipês, mas o terreno agora ficava cada vez mais difícil, pedregoso e cheio de espinhos.

​Foi quando vi a casa ao longe. Uma construção grande, de telhados altos, que parecia deslocada naquele deserto. Tropecei e caí. Uma moça negra me avistou de longe. Levantei-me em um salto, o coração disparado: ela poderia chamar os donos. Ela poderia me devolver à prisão.

​Alcancei-a antes que entrasse. Agarrei-a pela cintura e caímos juntos. Tapei sua boca enquanto ela tentava gritar. Seus olhos eram lindos, mas arregalados pelo terror. Ela era magrinha, frágil sob minhas mãos.

​— Não quero te machucar — sussurrei, olhando para a porta da casa. Ninguém aparecia. — Eu só quero seguir meu rumo. Vou tirar a mão, mas não grite.

​Ela assentiu. Soltei-a devagar.

​— Tire as mãos de mim! — ela sibilou. — Meu sinhozinho está voltando. É melhor você ir andando.


​Olhei para a casa. De perto, a "casa grande" era uma ruína. A pintura descascava, as tábuas estavam soltas e não havia rastro de cavalos, carroças ou plantações.

​— Não tem sinhozinho aqui faz tempo, não é? — perguntei.

​Ela não respondeu. Correu para dentro e bateu a porta. Notei, então, um monte de terra remexida nos fundos. Uma pá esquecida ao lado. Cheguei perto e vi o que não queria: a ponta de uma bota saindo de uma cova rasa e malfeita.

​Bebi o último gole de água. Entrei na casa com um chute, arrombando a porta que se desmanchava em cupim. O interior era escuro e cheirava a mofo, mas os móveis eram luxuosos, como os que vinham da Europa. Quando meus olhos se acostumaram à penumbra, vi a moça. Ela estava no meio da sala, em posição de ataque, segurando uma faca grande.

​Dava pena vê-la. O vestido caía sobre os ossos da clavícula, revelando uma fome antiga. Mas sua bravura era diferenciada. Com um pulo, segurei seu pulso. Ela era tão fraca que soltou a faca sem esforço. Começou a me atacar com unhas e dentes, rugindo como um gato-do-mato.

​— Eu vi o corpo lá atrás — falei, contendo seus braços.

​Ela parou na hora. O fogo nos olhos deu lugar a uma tristeza profunda.

​— Ele me comprou para abusar de mim — disse ela, a voz trêmula. — Eu não fui feita para ser tratada assim.

​— Ninguém foi — respondi.

​Tirei um pedaço de frango da minha bolsa e ofereci a ela. Ela avançou no alimento como um bicho faminto.

​— Ele me pegou desprevenida uma vez — falou de boca cheia. — Eu não ia deixar de novo. Há muito tempo não comemos carne aqui. O seu Antônio não criava nada.

​— Qual o seu nome, pequena?

— Me chamam de Maria. E o seu?

— Paulo.

— Como o da Bíblia? — Ela sorriu pela primeira vez.

— Sim, como o da Bíblia.


​O momento de paz foi interrompido por um vulto na porta. Um homem de chapéu entrou, tentando enxergar no escuro.

​— O que houve aqui? Onde está o Senhor Antônio?

​Eu me preparei para o bote. Não seria preso de novo. Mas o homem foi mais rápido e sacou uma pistola. Maria se levantou num ímpeto. Gritei para ela se abaixar, mas o disparo ecoou, ensurdecedor, no cômodo fechado.

​O sangue espalhou-se instantaneamente pelo vestido de Maria. Ela continuou de pé. O homem tremia, a arma fumaçando. Ele não olhava para mim; olhava para ela com um horror indescritível.

​Eu esperava o baque do corpo de Maria no chão, mas ele não veio.

​Antes que eu pudesse reagir, ela, ágil como uma sombra, pegou a faca no chão e voou sobre o homem. O que vi em seguida me gelou o sangue: enquanto ela esfaqueava o soldado, o buraco da bala no peito dela se fechava diante dos meus olhos. O tecido estava tinto de vermelho, mas a pele por baixo estava intacta.

​Ajudei Maria a levar o corpo para o quintal. Abri uma cova maior e enterrei o soldado ao lado do seu "anfitrião". Maria ajudava em silêncio, como se não tivesse acabado de levar um tiro no coração.


​Eu não tive coragem de dizer nada. Nem de perguntar. Apenas enxuguei o suor que caía nos meus olhos e entrei na casa. Maria já estava lá dentro, com uma vassoura na mão, varrendo o chão como se o mundo lá fora não existisse.

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