Prefácio Liberdade
— Hoje teremos um exemplar exótico! Esta garota, denominada Maria, é uma excelente amostra das terras raras de Erigon. Vamos começar o leilão com 10 soberanos. Isso é uma pechincha para uma peça tão bem cuidada!
O vento gelado cortava a pele de Kaelani — agora denominada Maria — como pequenas lâminas, mas o frio do lado de fora não se comparava ao vazio que se instalara em seu peito. Em Erigon, a ausência de vestes era liberdade, era o sol aquecendo a pele sob o céu aberto. Ali, sob o olhar pesado daqueles estranhos, a nudez virara um peso imenso, uma vergonha que ela sequer sabia que existia.
Ela fechou e abriu os olhos devagar, tentando se ancorar em qualquer coisa que não fosse a multidão. Diante dela, rostos pálidos e sulcados por rugas profundas se amontoavam. Vestiam tecidos escuros, pesados, sem a vida e as cores do seu povo. Não havia calor naqueles olhares, apenas uma curiosidade fria, como quem examina uma ferramenta no mercado.
A inocência de Maria era, ao mesmo tempo, seu escudo e sua dor: ela não conseguia decifrar o que se passava na mente daqueles homens, e essa ignorância a protegia do terror absoluto. Mas não a protegia da solidão.
— Eu pago 10 soberanos por essa belezinha!
A voz grave veio de um homem de barbas brancas e barriga proeminente, coberto por um chapéu preto e ostensivo. Ele articulava palavras incompreensíveis, sons duros que arranhavam os ouvidos de Maria. Nada ali soava como a língua doce de sua terra.
Enquanto os lances ecoavam ao seu redor, o mundo ao longe parecia desbotar. Maria não sabia para onde a levariam, mas sentia, no fundo da alma, o baque surdo de ter o próprio destino arrancado de suas mãos.
— Dou 20 pela Erigonita, meu Sr. Alberto!
Um homem magro e bem alto levantou a mão, rindo.
O leiloeiro puxou Maria pela corrente para aproximá-la da plateia, o que a fez tremer. Ela abaixou os olhos para não ver como a olhavam; tentou imaginar sua terra, sua casa feita de barro, seu povo, sua mãe tão grande e acolhedora.
O leiloeiro segurava uma fina vara de madeira polida. Com gestos mecânicos e desprovidos de qualquer humanidade, usou a ponta do objeto para erguer o queixo de Maria, forçando-a a olhar para o alto — revelando seu olhar de fúria. Depois, indicou a firmeza de seus ombros e a postura de suas costas musculosas, costas de quem sempre trabalhou no pesado, carregando as colheitas. Cada toque daquela madeira fria na pele nua fazia um arrepio involuntário correr por sua espinha — não apenas pelo vento gelado, mas pela repulsa de ser apontada e medida como se fosse um animal em uma feira.
— Olhem bem, cavalheiros! Esta peça é única, vale bem mais do que isso.
— Dou 500 soberanos!
Era a voz de uma senhora. Ela estava acompanhada do filho, um rapaz alto, bem maior que a mãe, mas que parecia desajeitado e magro. Ele vestia um conjunto com chapéu de abas largas e roupas brancas, enquanto a mulher, branquinha e de olhos claros, usava um vestido amarelo e um véu cobrindo a cabeça na mesma cor. Parecia ser a única mulher no grupo de homens. Todos se espantaram, pois era uma quantia absurda para uma escrava, fosse ela como fosse.
A garota, com o rosto erguido por causa da vara, fixou o olhar em sua compradora.
O leiloeiro, sem palavras, demorou para assimilar o valor absurdo pelo qual acabara de vender a Erigonita. O dia já estava ganho na primeira venda.
— Vendido para a Viúva Moretti!
...
O tecido grosso que cobria Kaelani a incomodava. Estava coberta por uma blusa, mas se sentia mais segura. Andando dentro da carroça, à frente de seus compradores e novos senhores, analisava sua nova aquisição. A Viúva Moretti se abanava com um leque sem parar, enquanto o jovem olhava para o canto do veículo, tentando desviar os olhos da garota. Ela achou aquilo curioso.
— Tem quantos anos, menina? — perguntou a Viúva.
Ela não entendeu uma palavra; não falava a língua dos seus senhores.
— Não entende o que eu falo? Isso vai complicar as coisas... — A viúva suspirou.
Dona Moretti apontou para si mesma com o leque na mão:
— Dona Elena Moretti.
A Erigonita estava assustada. A viúva bateu com o leque em sua perna para chamar sua atenção e repetiu, apontando para si:
— Dona Elena Moretti.
Kaelani, então, repetiu com um sotaque diferente:
— Dona Elena Moretti.
A mulher apontou para o rapaz:
— Dante Moretti.
Ela falou, olhando para o jovem tímido:
— Dante Moretti.
Dona Moretti apontou para a garota e disse:
— Maria.
Kaelani entendeu que estavam lhe ensinando os nomes, mas haviam se enganado com o seu:
— Kaelani.
A viúva olhou para o filho, espantada com a ousadia da Erigonita.
— Não, minha querida. — Ela apontou o leque de volta para a moça. — Agora você é Maria.
Kaelani repetiu, obediente:
— Maria.
...
A fazenda a que chegaram era bonita, com plantações de café e vários homens e mulheres trabalhando. Maria olhava pela janela, admirada; por mais que não visse as mesmas cores de sua terra, reconheceu seu povo pelo rosto, pelos sorrisos e pela cor da pele.
— Fique tranquila, Maria. Seu trabalho não será como o deles, eu a adquiri para outros intuitos.
Finalmente, a carroça parou diante de uma imponente casa de madeira escura, com tábuas bem encaixadas e polidas pelo tempo, emolduradas por varandas largas sustentadas por pilares entalhados.
Ao descer da carroça, Dona Moretti se espreguiçou, estralando as costas e apressando-se para entrar:
— Vamos, garota, tenho muito a lhe mostrar antes do almoço. Dante vai pegar o restante das compras.
Ela foi entrando na casa e a garota se apressou para acompanhá-la.
Dentro do imóvel, um grande corredor estava repleto de estantes cheias de livros; onde não havia livros, havia quadros brancos cheios de anotações e cálculos.
Chegaram a um grande salão onde havia mesas com ampolas e vidros contendo líquidos fervendo. Havia também um grande quadro com o desenho do corpo humano, um feminino e um masculino, com anotações e números ligados a cada membro.
Dona Moretti apontou para um grande mapa-múndi, quase do tamanho do quadro-negro, onde se viam dois grandes continentes:
— Olha, minha pequena, quero lhe mostrar onde você está agora. — Ela apontou com o leque para o continente maior, à direita. — Esta é Erigon, de onde você veio.
— Erigon... — A garota repetiu, admirada.
No mapa do seu continente, havia gravuras de árvores, montanhas e animais que ela conhecia de sua terra.
Maria tocou com o dedo a gravura de uma criatura grande, como um cavalo forte e musculoso:
— Magnussu... — Ela sorriu, e uma lágrima caiu de seus olhos.
— Sim, minha querida. Mas quero lhe mostrar onde você está agora.
A senhora deu alguns passos para o lado e mostrou o outro lado do mapa, após um grande espaço azul, muito distante de onde Maria tinha tocado:
— Aqui é Valeriam, onde você vive agora, minha pequena.
Maria colocou a mão na boca, assustada, pois entendeu o que a Dona Moretti acabara de lhe mostrar.
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