Vidas - Um conto de Leandro Mendes
Tirei do bolso um pequeno caderninho de capa surrada e uma caneta. Para mim, aquelas pessoas não eram apenas estranhos passando; eram personagens da minha crônica particular. Pedi ao garçom um prato que me permitisse saborear o momento e prolongar a minha estadia naquela mesa.
Olhei para um o jovem casal que entrava em seu apartamento e os batizei de Clara e Roberto. Observei-os mais de perto: Clara era uma moça de pele clara e cabelos castanhos compridos, com um sorriso radiante que iluminava o rosto. Roberto, ao seu lado, era um rapaz alto, de olhar determinado, vestindo roupas elegantes, o que sugeria que estavam construindo uma vida próspera e bem-sucedida.
Meus olhos se voltaram para a sacada ao lado, onde uma jovem de pele morena e traços marcantes, uma verdadeira cabocla de beleza estonteante, se penteava com delicadeza. Anotei o nome dela como Helena, imaginando que ela talvez esperasse por alguém especial naquele dia ensolarado.
De repente, o som da campainha quebrou o silêncio daquela manhã e vi surgir na porta a mãe de Helena. Ela era incrivelmente parecida com a filha, mas os anos haviam desenhado linhas suaves em seu rosto e delicadas rugas que contavam histórias de uma vida inteira, mantendo, no entanto, a mesma expressão afetuosa.
Meus olhos subiram e se fixaram na sacada superior, onde uma senhorinha regava suas plantas com o cuidado de quem cultiva um tesouro. Ela era de pele muito clara, com traços delicados que lembravam os de uma matrona europeia; seus cabelos brancos como a neve emolduravam um rosto sereno e cheio de sabedoria. Em minha mente, ela se tornou Dona Margarida, a guardiã das memórias daquele prédio.
Na varanda de outro andar, vi uma mulher que parecia bastante ocupada. Ela saía apressada, com os cabelos um pouco desgrenhados e o olhar fixo nas mochilas que segurava, enquanto falava com firmeza e autoridade com os dois filhos, que a seguiam com pressa. Em meu caderninho, anotei o nome dela como Mariana.
Mais tarde, observei-a retornando com os meninos. O cansaço transparecia em cada gesto, mas, assim que entraram, ela sorriu para eles, escondendo sua exaustão. Em seguida, vi-a se retirar para o quarto, onde a observei debruçada na janela, deixando as lágrimas escorrerem por um breve momento de vulnerabilidade.
Meus olhos se desviaram para o térreo do prédio, onde um senhor de cabelos brancos como a neve trabalhava em sua modesta oficina de bicicletas. Ele vestia uma camisa xadrez de mangas dobradas e um avental de couro surrado, trajes que pareciam saídos de outra época. Com mãos calejadas e pacientes, ele consertava a bicicleta dourada de um garotinho, garantindo que ele pudesse voltar a brincar pela rua.
Já há muitos anos eu observo essas vidas, como se fossem páginas de um livro que conheço de cor. Vi Dona Margarida, com o passar do tempo, perder o seu amado marido e encontrar consolo nas plantas que cultivava com tanto carinho. Assisti ao casal Clara e Roberto darem os primeiros passos rumo à independência, comprando o apartamento e começando sua nova história juntos. Também acompanhei a chegada de Helena, aquela cabocla de beleza estonteante que, com sua presença, trouxe um novo ânimo para o condomínio. E me lembro, com um aperto no coração, da história de Mariana, que foi abandonada pelo marido e precisou encontrar forças para criar os filhos sozinha. Para mim, não são apenas vizinhos; são as vidas que inspiram cada palavra que registro.
De repente, um som sutil chamou minha atenção: o tilintar da colherzinha contra a porcelana da minha xícara. Olhei para o líquido escuro e vi pequenas ondulações se formando na superfície. Um tremor começou a percorrer a mesa, fazendo com que a colherzinha batesse ritmadamente contra as bordas; um som metálico e estranho que quebrou a paz daquele momento. Senti um arrepio correr pela espinha, percebendo que a tranquilidade da manhã estava prestes a ser engolida por algo desconhecido.
De repente, o som da colherzinha batendo na xícara ficou mais forte. Um tremor começou, fraco no início, mas rapidamente se intensificou. Vi cadeiras balançando e caindo no chão, enquanto, pela janela, os postes e placas de trânsito se dobravam como se fossem de papel. O prédio começou a tremer violentamente e os gritos de desespero começaram a ecoar por todos os cantos, revelando o pavor que tomava conta de cada uma daquelas vidas sob aquele teto. O caos se instalou rapidamente. Paredes começaram a desabar, revelando o interior dos apartamentos e transformando a visão em um cenário de pesadelo. Uma espessa nuvem de fumaça e poeira subiu, cobrindo tudo e dificultando a visão, enquanto o ar se tornava irrespirável.
Em instantes, o que era uma torre de vidas se tornou uma avalanche de destroços. Vi, com horror e dor, os apartamentos desabarem, levando consigo os sonhos e as esperanças de cada uma daquelas pessoas. Um grito silencioso escapou da minha garganta. Deixei o prato cair e corri desesperadamente em direção aos escombros, impulsionado por uma necessidade urgente de tentar ajudar.
O silêncio que se seguiu ao tremor foi ainda mais aterrorizante. Fiquei paralisado por um segundo, olhando para a devastação. Rapidamente, voltei a mim e avistei Dona Margarida, a senhorinha que há pouco regava suas plantas. Ela estava atordoada. Segurei a sua mão trêmula com firmeza e a guiei para fora, para a segurança da rua. Não deu tempo para respirar e corri até onde Mariana morava. Em meio aos escombros, vi uma de suas crianças chorando, presa. Com cuidado e desespero, consegui libertar o pequeno e levá-lo para longe do perigo. Ao meu redor, outras pessoas também se mobilizavam em um coro de socorro e compaixão. Com as mãos machucadas, comecei a retirar os destroços, buscando por mais sobreviventes. A dor do que não pudemos salvar apertava o peito, mas a determinação de ajudar os que estavam ali nos dava força.
Voltei para a mesa, desesperado, com lágrimas nos olhos. Fechei o caderninho, sentindo o peso de cada página escrita. Olhei para os escombros — e para as vidas que continuavam ali, de alguma forma — e uma certeza dolorosa me invadiu: como somos frágeis e como cada história que construímos pode desaparecer em um piscar de olhos. O que fica é o eco da memória e a conexão profunda que nos une.

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