Liberdade parte 2 Um conto de Leandro Mendes
Três vultos passam pela estrada, movendo-se com agilidade sobre-humana, como gatos selvagens. Ao chegarem ao limite de uma nova localidade, deparam-se com uma placa que diz: "Bem-vindo à Esperança".
Felipe Rebeca e Estevão Os três jovens morenos fortes atléticos respiravam fundo pegando ar da sua corrida animalesca sobre humana, os três sorrindo carregavam 3 sacos de grãos grandes e pesados.
Felipe o irmão mais velho avisou aos dois mais jovens, - Vamos trocar os mantimentos e voltar direto para casa sem confusão como da última vez. Não queremos encrenca com ninguém.
Felipe ajeitou o pesado saco de milho sobre os ombros largos, sentindo os músculos das costas ainda quentes e tensos pela corrida monumental. Seus olhos escuros e atentos varreram os arredores da entrada de Esperança, vigiando qualquer movimento suspeito.
Estêvão e Rebeca assentiram, _Não somos nós que começamos, Rebeca sorri sarcástica, seu vestido simples e apertado mostrava a musculatura diferenciada dos humanos comuns da cidade. Ela, com sua agilidade felina e postura esguia, deu um passo à frente, ajustando a carga de grãos em suas costas com uma facilidade
Controlando a respiração que aos poucos voltava ao ritmo normal. impressionante para alguém de sua estrutura. Estêvão apenas trocou um olhar cúmplice com o irmão mais velho, mantendo a guarda alta. Eles sabiam muito bem que a força e a velocidade que carregavam no sangue chamavam atenção demais — e atenção era a última coisa de que precisavam agora.
À frente deles, a cidade reluzia, vida e esperança como profetizava a placa aquele momento era um lugar vibrante, quase mágico. O sol começava a se deitar no horizonte, pintando de dourado as paredes das casas recém-construídas e as ruas limpas e movimentadas. O eco de risadas, marteladas de construções em andamento e cantos alegres flutuava pelo ar morno da tarde. Era uma cidade jovem, que crescia com o suor de um povo que se recusava a desistir.
— Entramos, trocamos o milho pelos mantimentos que a mamãe e o papai precisam, e sumimos antes que percebam de onde viemos sem acrobacias e sem correr pelas paredes dessa vez, Estêvão — alertou Felipe com um meio sorriso, embora o tom fosse sério.
— Pode deixar, chefe — respondeu Estêvão, ajeitando o próprio saco de grãos. — Vou caminhar como um humano comum. Ou tentar, pelo menos.
Com o cair da noite estendendo um manto de sombras acolhedoras sobre a estrada, os três irmãos morenos e atléticos respiraram fundo uma última vez. Deixando a postura selvagem de lado e adotando o passo compassado de simples viajantes, eles cruzaram o limite da placa e entraram na movimentada cidade de Esperança.
Assim que cruzaram o limite de Esperança, os três irmãos tentaram ao máximo se misturar à multidão. Diminuíram o passo, relaxaram a postura e tentaram imitar o caminhar pesado dos cidadãos locais. No entanto, disfarçar o que carregavam no sangue era uma tarefa quase impossível.
Mesmo sob as sombras acolhedoras do anoitecer, o porte atlético fora do comum deles chamava a atenção por onde passavam. Em uma cidade de trabalhadores esforçados, mas fisicamente desgastados pela rotina exaustiva da reconstrução, a presença de Felipe, Estêvão e Rebeca era magnética. A postura perfeitamente ereta, a musculatura diferenciada que se desenhava sob as roupas simples e a facilidade surreal com que carregavam aqueles sacos gigantescos de grãos não passavam despercebidas.
As conversas nas calçadas diminuíam quando eles se aproximavam. Os olhares que recebiam não eram de boas-vindas. Havia uma mistura pesada de inveja pela vitalidade óbvia dos três, frustração de quem mal conseguia carregar o próprio peso ao final do dia, e um indisfarçável preconceito contra aqueles "estranhos" que pareciam saídos de outro mundo. Murmúrios desconfiados seguiam seus passos como uma corrente de ar frio.
— Ignorem — sussurrou Felipe, mantendo os olhos fixos à frente, embora sentisse cada olhar cravado em suas costas. — Só foquem no objetivo.
Eles apressaram o passo discretamente até avistarem uma placa de madeira pintada à mão, iluminada por um lampião de querosene: "Venda da Dona Júlia". O estabelecimento era um dos pontos mais movimentados da avenida principal, exalando um cheiro reconfortante de café fresco, fumo de corda e temperos.
Buscando o refúgio daquela movimentação para selar logo o acordo, os três irmãos empurraram a porta de madeira, fazendo o pequeno sino de metal acima dela badalar, anunciando a entrada dos jovens que, mesmo sem querer, já eram o assunto da rua.
Uma senhora atrás do balcão observa com os olhos assustados as três figuras imponentes na porta do bar.
A atmosfera do estabelecimento parece ter congelado no exato instante em que o sino da porta badalou. Dona Júlia, com as mãos paradas sobre o balcão de madeira gasta, aperta os olhos por trás dos óculos descansados no nariz, medindo com receio as três figuras imponentes que preenchem a entrada.
Felipe dá um passo à frente, ajustando o pesado saco de milho nos ombros com uma facilidade que faz a senhora dar um pequeno passo para trás. Com a voz calma e pausada, buscando quebrar a tensão do ambiente, ele quebra o silêncio:
— Boa noite, senhora. Não queremos causar incômodo. Só viemos negociar esses grãos por alguns mantimentos.
— infelizmente o coco..ronel não deixar eu comprar mais de vocês.— a senhora falou com tremor na voz.
A porta de madeira rangeu pesadamente quando a voz grossa ecoou do lado de fora, cortando o silêncio tenso do estabelecimento:
— Fora da loja. Os três. Com as mãos onde possamos ver!
Felipe trocou um olhar rápido com Rebeca e Estêvão. A pulsação de seus irmãos não havia acelerado; o sangue sobre-humano que lhes corria nas veias mantinha a calma fria dos predadores, mas o perigo ali não era o combate — era a exposição.
Ao cruzarem a soleira da Venda da Dona Júlia, a luz dos lampiões da rua revelou o cerco. Cerca de doze homens armados com garruchas, carabinas e facões cercavam a entrada. À frente deles, montado num cavalo tordilho, estava o Coronel Altino. O homem ostentava um chapéu de aba larga e uma expressão de profundo desprezo, ajustando a bainha de couro no peito enquanto encarava os três jovens de cima para baixo.
— Ora, ora... — o coronel deu uma risada seca, sem um pingo de humor. — Me disseram que três sujeitos estranhos tinham entrado em Esperança carregando o peso de uma parelha de bois, mas não me avisaram que eram três pretos insolentes.
O silêncio na rua tornou-se sufocante. Os moradores que passavam apressaram o passo, escondendo-se nas sombras das varandas.
— Não queremos confusão, Coronel — disse Felipe, dando um passo firme à frente. Sua voz saiu límpida e pausada, o saco de milho ainda repousando sem esforço sobre seu ombro largo. — Viemos apenas trocar os mantimentos da nossa família. O milho é nosso, fruto do nosso trabalho.
— Fruto do seu trabalho? — Altino cuspiu no chão, bem aos pés de Felipe. — A escravatura pode ter acabado no papel, rapaz, mas as leis desta terra ainda são as minhas. Ninguém nesta região colhe um grão tão gordo em época de seca. E ninguém, muito menos gente da sua cor, caminha por aí carregando o peso de três homens como se fosse palha. De onde vocês tiraram essa força? Que tipo de feitiçaria ou roubo vocês estão escondendo nessa terra de vocês?
O tom racista e acusatório do coronel fez as narinas de Estêvão se dilatarem. O jovem dezenove anos deu meio passo à frente, os punhos cerrados ao lado do corpo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Rebeca, por sua vez, apenas inclinou ligeiramente a cabeça. O vestido simples desenhava os ombros tensos e esguios; seus olhos escuros varreram a posição dos doze homens em menos de dois segundos, mapeando as trajetórias das balas e os ângulos mortos.
— Estêvão, calma — murmurou Felipe, sem mover a cabeça, mantendo o olhar cravado no coronel.
— Eles não têm o direito, Felipe... — rosnou Estêvão bem baixo, a voz vibrando como o rosnado de um felino acuado.
— Eu sou a autoridade aqui! — bradou o coronel, apontando o chicote de couro para o peito de Felipe. — Em Esperança, negros altivos demais tendem a aprender a lição bem rápido. Vocês vão largar esses sacos aí mesmo. Considerem um imposto por pisarem no meu chão e por levantarem suspeitas. E se eu vir a cara de vocês nesta cidade de novo, não vai ter conversa: vão sair daqui arrastados por cavalos.
Os homens ao redor engrenaram as pistolas, o som mecânico de metal travando ecoando pela rua deserta.
Felipe respirou fundo. Ele sentiu o impulso primitivo do seu sangue clamar pela ação. Com a velocidade que possuíam, os três poderiam desarmar e desacordar metade daqueles homens antes mesmo que o primeiro gatilho fosse puxado. Mas o segredo de seus pais, a paz de sua casa e a vida secreta que levavam no mato valiam mais do que o orgulho de uma noite.
Sem piscar, Felipe abaixou-se devagar, mantendo a postura ereta, e depositou o pesado saco de milho no chão com um baque surdo. Fez um sinal sutil para Rebeca e Estêvão, que, a contragosto, o imitaram.
— O milho é seu, Coronel — disse Felipe, a voz grave e destemida, sem baixar a cabeça um único centímetro.
O coronel abriu a boca para responder, chocado com a audácia de Felipe em encará-lo sem piscar. Mas, quando os três irmãos deram as costas para ir embora e deixar os mantimentos para trás, um dos capangas na linha de frente deu um passo à frente. O sujeito soltou um assobio agudo e debochado, medindo Rebeca de cima a baixo com um sorriso sórdido:
— Que negrinha ajeitada, coronel... Deixa os sacos de milho pra lá, vamos ficar é com ela!
Aquela frase foi o estopim.
Antes mesmo que a gargalhada nojenta do homem terminasse de sair por sua garganta, o ar ao redor pareceu estalar. Estêvão simplesmente desapareceu da vista de todos. Não houve rastro de movimento, apenas um deslocamento súbito de vento. No segundo seguinte, o capanha já estava suspenso a alguns centímetros do chão, com a boca aberta em um grunhido mudo. A mão direita de Estêvão envolvia o pescoço do homem como uma garra de aço. Com um estalo seco e abafado que ecoou pela rua gelada, a espinha do sujeito se partiu. O corpo caiu inerte na poeira como um saco de batatas.
— FOGO! MATEM ESSES DESGRAÇADOS! — berrou o Coronel Altino, desequilibrando-se no selo do cavalo enquanto puxava o gatilho de sua garrucha.
O estrondo dos tiros cortou a noite em um clarão de pólvora. As balas rasgaram a escuridão, perfurando a madeira do bar e o chão de terra, mas atingiram apenas o ar vazio.
O que se seguiu não foi uma batalha; foi uma chacina fulminante executada por três predadores que abandonaram qualquer tentativa de disfarçar sua natureza.
Felipe moveu-se como um raio negro. Antes que o segundo homem pudesse engrenar o cão da espingarda, o irmão mais velho surgiu ao seu lado, agarrando o cano de ferro da arma e retorcendo-o como se fosse cera quente. Com o mesmo movimento continuo, desferiu um golpe com a palma da mão no peito do capanga, afundando a caixa torácica do homem e arremessando-o contra a parede de madeira da venda com uma força brutal.
Ao mesmo tempo, Rebeca usou a agilidade felina que tentava esconder. Cruzando o espaço entre os atiradores com saltos impossíveis para a anatomia humana, ela se tornou um vulto mortal sob a luz dos lampiões. Um dos guardas mal teve tempo de erguer o facão antes que Rebeca agarrasse seu pulso, girasse o braço do sujeito até ouvir o osso articular se fazer em pedaços e usasse o próprio facão do homem para rasgar a garganta do atirador ao lado.
Gritos de pânico e dor substituíram a valentia dos homens do coronel. Estêvão, tomado pelo ódio, movia-se em um ziguezague borrado, desviando dos projéteis com esquivas milimétricas. Ele interceptava os capangas antes mesmo que pudessem mirar, quebrando clavículas, estilhaçando crânios e arremessando homens adultos de um lado a outro da rua como se fossem bonecos de pano.
Em menos de vinte segundos, o eco dos disparos cessou.
O cheiro acre de pólvora misturou-se ao odor forte de sangue fresco que impregnava o solo de Esperança. Onze homens jaziam mortos ou agonizantes na poeira, espalhados ao redor dos sacos de milho intactos.
No meio da rua, retendo a fúria da montaria aterrorizada, o Coronel Altino parou paralisado, a garrucha fumegante tremendo em sua mão. Ele olhava para os três irmãos — em pé, quase sem respirar fundo, sem um único arranhão, com os olhos escuros brilhando sob a sombra do luar. Pela primeira vez na vida, o homem que mandava na região entendeu o verdadeiro significado do medo.
Dona Júlia colocou a cabeça para fora do armazém, a mão trêmula segurando o batente da porta de madeira. Seus olhos se arregalaram em pavor absoluto ao testemunhar a cena na rua: onze corpos caídos e retorcidos na poeira, a poça de sangue fresco brilhando sob a luz fraca do lampião e, bem no centro daquele massacre silencioso, os três sacos de grãos intactos, como se nada tivesse acontecido.
A quilômetros dali, no coração da mata, a pequena casa de madeira repousava sob a quietude da noite.
Dentro, o pai descansava na cadeira de balanço na varanda, o fumo do seu cachimbo subindo em espirais lentas e cheirosas no ar fresco. Ao lado dele, Dona Maria varria o chão ritmadamente, o som da palha roçando a madeira trazendo uma paz doméstica que parecia ignorar o mundo lá fora.
O silêncio foi quebrado pelo barulho leve de passos. Os três irmãos surgiram das sombras da mata, carregando o suor da corrida e as marcas escuras de sangue impregnadas nas roupas simples.
O pai nem sequer parou o movimento compassado da cadeira. Tirou o cachimbo da boca, soltou uma nuvem de fumaça cinzenta e olhou para os filhos, a expressão calma e indecifrável.
— Como foi na cidade? — perguntou ele, a voz grave e pausada.
Felipe deu um passo à frente, ajustando a postura enquanto limpava o rosto manchado.
— Tudo como previsto.
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