Amoras parte 3 um conto de Leandro Mendes


Leia com trilha sonora 



​A televisão transmitia o jornal. Eles reportavam o terrível desastre no centro da cidade de Nova Esperança: um prédio de apartamentos desabara de uma hora para outra. Antonela, sentada na poltrona, assistia focada e com lágrimas nos olhos. Seu filho chegou, sentou-se no braço da poltrona para abraçá-la e acolhê-la.

​Lorenzo, seu marido, estava no celular o tempo todo. Nem deu atenção aos sentimentos dela, como sempre.

​O prédio era especial para Antonela. A mãe dela, dona Rosa, nascera naquele lugar e vivera toda a sua infância lá, até os 17 anos, quando conheceu Don Domênico — um lindo cavaleiro italiano, rico, oferecendo-lhe o mundo. Ela não pensou duas vezes, mas Rosa amava a nostalgia que aquele grande prédio cheio de vida trazia, e levava Antonela escondida para conhecê-lo e apresentar-lhe os moradores. Don Domênico acabou comprando o imóvel; o prédio estava em suas mãos.

​Mas, depois da morte do pai, tudo passou para Antonela, que parou de cobrar aluguéis tão absurdos. Agora, porém, estava tudo acabado. Toda uma vida, todos os sonhos se foram. Talvez fosse por isso que Lorenzo sempre tomava a frente dos negócios e estava tão ocupado.

​Antonela se desprendeu dos braços do filho e correu; seus sentimentos já estavam em frangalhos há tempos. Ela perdera a mãe muito pequena e, então, conheceu Vicente, que era seu melhor amigo e também seu amor secreto. Ele era o jovem filho da empregada, e seu pai o aceitara para trabalhar para ele. O garoto fazia tudo o que o patrão pedia, mas o velho jamais aceitaria um relacionamento entre os dois. A garota queria fugir com Vicente, mas o rapaz buscava a aceitação do patrão. Logo depois de se entregarem um ao outro em uma noite em que o pai dela estava fora, Vicente saiu para prestar um serviço e não voltou mais.

​Ela estava grávida. Sem o amor de sua vida, sabia que o pai a mandaria abortar — era certeza. Por isso, casou-se com o primeiro pretendente que apareceu.

​Lorenzo era um banqueiro que fazia parte das grandes armações do pai dela. Quando conseguiu a galinha dos ovos de ouro, não pensou duas vezes: largou o serviço no banco para entrar no negócio da família. Isso era o que mais lhe importava, esquecendo-se de Antonela. Ela fora apenas uma boa negociação para ele.

​Logo depois do casamento às pressas, Antonela revelou sua gravidez. Ninguém desconfiou, exceto Teresa, a mãe de Vicente. Antonela via nos olhos da cozinheira, quando passava pela cozinha, um sorriso disfarçado. Às vezes, Teresa perguntava se Antonela estava bem ou se queria algo.


​Um dia, quando Antonela estava sozinha mais uma vez no casarão — com apenas os capangas do lado de fora, enquanto seu marido e seu pai tinham saído juntos —, acabava de sair do banho quando escorregou, batendo a barriga na parede. Uma dor muito forte percorreu seu corpo, mas não era uma dor da carne, e sim do espírito. Será que perderia o único bem que Vicente lhe deixara, sua última lembrança?

​Chorando de medo, ela passou pela cozinha rumo à sua querida amoreira e começou a chorar desesperadamente. Dona Teresa apareceu na porta e, ao ver a menina naquele estado, correu até ela e a abraçou.

— Minha filha, o que aconteceu?

— Eu bati a barriga, dona Teresa. Posso perder o bebê!

— Você está sangrando, minha filha?

— Não, mas estou com muito medo de perder a última lembrança que eu tenho de...

​Antonela parou no meio da frase, mas dona Teresa já tinha entendido toda a situação — ou apenas confirmara o que já sabia.

— Sabe, Antonela, os bebês sentem tudo o que a mãe sente. Se você estiver bem, ele estará bem. Você está sentindo alguma dor?

— Não.


​Um sentimento de confiança, gratidão e um verdadeiro amor maternal surgiu entre as duas. A cozinha agora era um refúgio para Antonela e um alívio para dona Teresa, que também achava que o filho estava morto, mas agora via que ele lhe deixara uma joia: o pequeno Gabriel. O garoto era a cópia do pai. O marido de Antonela nem reparava; na verdade, ele quase não aparecia mais em casa, sempre ocupado com algum trabalho para Don Domênico. Dona Teresa e Antonela viviam fazendo piqueniques debaixo da amoreira enquanto Gabriel dava seus primeiros passos.


​Mas uma forte dor de cabeça afligiu dona Teresa. Era o começo de um terrível martírio.

​A princípio, Antonela tentou se convencer de que era apenas cansaço. Ela mesma preparava compressas frias e chás para dona Teresa, assistindo com o peito apertado à mulher atribuir aquelas fisgadas violentas na cabeça ao calor da cozinha ou ao peso dos anos. Mas o tempo não mentia. Enquanto via o pequeno Gabriel aprender a equilibrar as perninhas e dar seus primeiros passos em direção à amoreira, Antonela percebia que algo muito mais sombrio e devorador estava acontecendo. Ela notava os pequenos deslizes que os outros ignoravam: a mão de Teresa tremendo ao segurar uma xícara, o olhar perdido quando a visão subitamente embaçava e, principalmente, as vezes em que a senhora olhava para o menino, sorria com os olhos rasgados de lágrimas e o chamava pelo nome do filho morto. “Meu Vicentinho...”, sussurrava a cozinheira. Antonela engolia o choro, fingia não ouvir a confusão da mulher e apenas abraçava o filho, sentindo que o mundo desmoronava silenciosamente ao seu redor.

​Conforme Gabriel crescia — tornando-se a viva imagem de Vicente, com os mesmos olhos vivos e o mesmo sorriso doce —, o tumor implacável dentro de Teresa também se alastrava, e Antonela via a única pessoa que a amava definhar dia a dia. A dor de ver a protetora perder as forças era acompanhada por um novo e perturbador sentimento: a urgência. Antonela percebia nos olhos de Teresa que a velha senhora sabia que seu tempo estava se esgotando. E foi em uma tarde calma, enquanto Lorenzo gritava ao telefone no escritório sobre os negócios do centro e Gabriel dormia na sombra do quintal, que Teresa segurou sua mão com uma força desesperada. Com a voz falhada e as pupilas dilatadas pela dor, ela se foi.

​E Antonela ficou, mais uma vez, só com seu querido filho para acalentá-la. Mas ela guardou o segredo de quem era o pai de Gabriel no seu íntimo, pois sabia o terrível desastre que aconteceria se fosse descoberta.

​Agora, depois do terrível desastre do prédio, ela chorava ao pé da amoreira quando Mauro, o jardineiro, se aproximou, abraçando-a.

— O que foi, dona Antonela? O que aconteceu?


​Ela não respondeu. Achou um absurdo a ousadia do funcionário, mas reconheceu no forte abraço uma memória há muito esquecida. Aquele acolhimento trouxe a lembrança de tempos distantes, de quando tinha os abraços fortes de Vicente. Olhando nos olhos do jardineiro, uma ideia louca, vinda do fundo do seu consciente, trouxe um ar de esperança: ela não via mais Mauro, mas sim seu amado Vicente. Seria possível aquele jardineiro ser o seu Vicente, morto há tanto tempo?

​Só via uma maneira de ter certeza. Ela, então, aproximou seus lábios dos dele e o beijou.

​Com o coração se aquecendo, teve a total certeza: Vicente vivia, e era ele o homem que ela tinha em seus braços.

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