Amoras - Um conto de Leandro Mendes
O motor do ônibus velho roncava alto, vibrando contra o chão de metal surrado e empurrando um cheiro forte de óleo diesel para dentro da cabine. Pela janela, os postes de iluminação da estrada passavam como borrões amarelados na escuridão da noite. O rapaz sentado no banco ao lado olhava fixamente para o celular, com os fones de ouvido no pescoço, impaciente com a lentidão da viagem.
Eu o observava de soslaio. Ele me lembrava de mim mesmo, vinte anos atrás. Aquela urgência de quem acha que o mundo vai acabar se o ônibus atrasar dez minutos.
Ajustei o colarinho da minha jaqueta de couro, velha e um pouco gasta nos cotovelos, e limpei a garganta. O garoto nem se mexeu. Mas o silêncio daquela estrada deserta estava me sufocando mais do que os anos que passei trancado entre quatro paredes de concreto. Eu precisava falar. Se as palavras ficassem presas no meu peito por mais uma hora, eu acho que explodiria antes mesmo de chegar ao destino.
— Sabe, garoto... — comecei, com a voz rouca, competindo com o barulho do motor. Ele piscou, tirou o fone esquerdo e me olhou, meio assustado, meio entediado. — Você olha para esse relógio no seu pulso a cada cinco minutos como se tivesse o controle do tempo. Mas a verdade é que o tempo só serve para nos mostrar o tamanho do erro que a gente comete quando tenta adivinhar o amanhã.
Ele deu um sorriso sem graça, sem saber se me ignorava ou se respondia. Não dei espaço para ele escolher.
— Olhe para as minhas mãos — estendi as palmas para a frente. Calejadas, grossas, com uma cicatriz profunda cruzando a base do dedão esquerdo. — Um homem com mãos assim não deveria ter o direito de sonhar com o que eu sonhei. Mas o coração de um menino de sete anos não entende nada de classes sociais, de linhagem ou de sangue. Ele só sente. E o que eu senti naquela época... bem, é o que está me trazendo de volta hoje, depois de dezessete anos no inferno.
O rapaz guardou o celular no bolso. O tom da minha voz ou o peso do meu olhar parece ter capturado a atenção dele. Ele se ajeitou no banco, cruzando os braços. "Do que o senhor está falando?", perguntou, curioso.
— Estou falando de como a minha vida começou, no banco de trás de uma cozinha que cheirava a molho de tomate e manjericão. Minha mãe era a cozinheira-chefe da mansão dos Moretti. Para quem via de fora, os Moretti eram grandes empresários, benfeitores da cidade, homens que apertavam as mãos de prefeitos e juízes. Mas, para quem vivia nos bastidores daquela propriedade fortificada em Goiânia, o sobrenome tinha outro significado. Significava medo. Don Domênico Moretti era o dono da porra toda. Se um fio de cabelo caía na cidade sem a autorização dele, alguém pagava o preço.
Apoiei a cabeça no encosto do banco, deixando a mente viajar de volta para o meio dos anos 90, para os jardins imensos daquela fortaleza.
— Eu era o filho da empregada. O moleque descalço que andava pelos cantos, que tinha ordens estritas da mãe para nunca ser visto pelos 'doutores'. 'Fique na cozinha, Vicente', ela me dizia todos os dias, com os olhos cheios de uma preocupação que eu só fui entender quando fiquei mais velho. 'Se o Don te vê correndo pelos corredores, ele me põe na rua com uma mão na frente e outra atrás. Ou pior'. E eu obedecia. Até o dia em que uma bola de couro vermelha rolou para dentro da horta de tomates da minha mãe.
Dei uma leve risada, uma memória doce misturada com o gosto amargo de tudo o que veio depois.
— Eu fui pegar a bola. Quando me abaixei entre os tomateiros, vi duas pernas finas e um vestido branco rendado. Era Antonella. Ela tinha a mesma idade que eu, sete anos. Mas enquanto eu parecia um bicho do mato, ela parecia um anjo esculpido em porcelana. Tinha os cabelos castanhos cacheados e uns olhos tão grandes e expressivos que pareciam ler a minha alma antes mesmo de eu abrir a boca. Eu gelei. Achei que ela ia gritar, chamar os seguranças, e que a minha mãe perderia o emprego.
"E o que ela fez?", o rapaz do lado perguntou, agora totalmente imerso na história.
— Ela sorriu. Um sorriso que desarmou todo o meu medo. Ela colocou o dedo indicador na frente dos lábios, pedindo segredo, e disse: 'Você quer brincar?'. Naquele momento, garoto, o meu mundo mudou de eixo. Eu não era mais o filho invisível da cozinheira. Eu era o companheiro de aventuras da filha do homem mais perigoso do estado.
Olhei pela janela do ônibus. A escuridão parecia a mesma daqueles cantos escondidos do jardim onde a gente se escondia.
— Passamos a infância inteira vivendo em dois mundos paralelos. De frente para as câmeras, para as festas da alta sociedade que o pai dela dava, ela era a princesinha intocável, cercada de babás, professores particulares e seguranças armados até os dentes. Mas quando o sol começava a se pôr e a movimentação na mansão diminuía, ela dava um jeito de escapar. O nosso ponto de encontro era perto de um velho pé de amora, nos fundos da propriedade, bem perto do portão de serviços por onde entravam os caminhões de mantimentos.
Fiz uma pausa, sentindo o peso daquela lembrança. O rapaz ao lado estava em silêncio, prestando atenção em cada detalhe.
— Nós subíamos naquela árvore e passávamos horas conversando. Eu contava para ela sobre as histórias de ficção científica que eu lia nos livros velhos que encontrava no lixo ou que ganhava de doação; falava sobre planetas distantes, sobre viagens no tempo, sobre mundos onde as pessoas podiam ser o que quisessem. E ela me ouvia como se eu fosse o homem mais sábio do universo. Antonella odiava a redoma de vidro em que vivia. Ela sentia o peso do sobrenome. Ela via os homens de terno que entravam no escritório do pai com expressões sombrias e saíam de lá com maletas cheias. Ela sabia, mesmo sendo criança, que o luxo que a cercava era manchado de sangue. 'Eu queria ser livre como você, Vicente', ela me disse uma vez, enquanto limpava o canto da boca sujo de amora. Livre... Mal sabia ela que a minha liberdade era uma ilusão, e que eu já estava acorrentado àquela mansão por causa dela.
O ônibus passou por um buraco na pista, dando um solavanco que nos jogou para a frente. Segurei-me no banco da frente, sentindo a rigidez do meu próprio corpo.
— Os anos passaram rápido demais, garoto. Quando você é jovem, acha que a infância vai durar para sempre. Mas o tempo é um cobrador implacável. Nós crescemos. O corpo dela mudou, o meu também. Aquele sentimento de brincadeira de criança foi se transformando em algo muito mais denso, mais perigoso. Aos quinze anos, eu já não olhava para ela apenas como a minha amiga de infância. Eu a amava. E o pior é que eu sabia que era um amor proibido. Se Don Domênico desconfiasse que o filho da cozinheira olhava para a herdeira dele com segundas intenções, ele não pensaria duas vezes em me apagar da face da terra. E a minha mãe sabia disso. Ela chorava à noite, me implorando para me afastar. 'Aquele povo não é como a gente, meu filho. Eles são monstros vestindo roupas caras. Fique longe da menina'.
Respirei fundo, sentindo o ar frio do ônibus.
— Mas como você diz não para a única coisa que dá sentido à sua vida? Antonella também me olhava diferente. Nos nossos encontros no pé de amora, os assuntos mudaram. Não falávamos mais de brincadeiras. Falávamos de futuro. Ela dizia que quando fizesse dezoito anos, iria para a faculdade longe dali, que fugiria daquela vida. E eu prometia que iria com ela. Que daria um jeito de protegê-la. Mas a realidade é uma vadia, garoto. Ela bate na sua cara quando você menos espera.
O rapaz me olhava com uma mistura de respeito e piedade. "E o que aconteceu quando vocês cresceram?", ele perguntou baixo.
— O que aconteceu é que o mundo real nos pegou de jeito. Quando completei dezoito anos, minha mãe adoeceu. O tratamento era caro, e o salário de cozinheira não cobria nem um terço dos remédios. Eu precisava de dinheiro, e precisava rápido.
Foi aí que Don Domênico me chamou no escritório dele. Aquele lugar cheirava a charuto caro e couro. Ele me olhou de cima a baixo, com aqueles olhos de tubarão que não piscavam, e disse: 'Vicente, você cresceu forte. Seu pai era um homem de bem, e sua mãe serve a esta casa há anos. Eu sei que você precisa de dinheiro. Eu posso te ajudar. Mas você vai ter que trabalhar para mim. Não na cozinha. Na rua'.
Fechei os olhos por um segundo, revivendo o momento em que assinei o meu pacto com o diabo.
— Eu sabia exatamente o que aquilo significava. Significava entrar para o lado escuro da organização. Mas eu olhei para a situação da minha mãe, olhei para a promessa que fiz de tirar Antonella dali um dia, e achei que seria forte o suficiente para entrar na lama sem me sujar por completo. Que erro ridículo. Aceitei o trabalho. No começo, eu era apenas um motorista, um segurança de terceira linha. Mas eu tinha raiva, tinha pressa, e não tinha medo de morrer. Rapidamente, fui subindo os degraus. Aprendi a bater, aprendi a cobrar, aprendi a usar uma arma. Em poucos anos, me tornei o capanga de maior confiança do Don. O homem que ele chamava quando as coisas complicavam de verdade.
Olhei novamente para as minhas mãos calejadas.
— Eu justificava cada atrocidade que cometia dizendo a mim mesmo que era por ela. Que cada maço de dinheiro que eu guardava debaixo do colchão era um tijolo a mais na ponte que nos tiraria dali. Antonella sofria com isso. Toda vez que me via com um corte no rosto ou com os nós dos dedos esfolados, ela chorava. Ela me pedia para parar. Mas eu dizia: 'Só mais um pouco, Anto. Só mais um pouco e a gente foge'. Eu achava que o dinheiro e a minha utilidade para o pai dela me dariam o status necessário para, pelo menos, ser ouvido. Eu achava que tinha me tornado um homem aos olhos do Don.
Dei um sorriso amargo, sentindo o peso do arrependimento.
— Mas para homens como Domênico Moretti, nós nunca somos homens, garoto. Somos apenas ferramentas. Ferramentas descartáveis que eles usam para limpar a sujeira e que jogam no lixo quando perdem o corte. E eu descobri isso da pior maneira possível.
O ônibus reduziu a velocidade, entrando em uma curva fechada na estrada. O letreiro luminoso lá na frente indicava que estávamos nos aproximando dos limites da cidade. Meu coração começou a acelerar. Cinco anos longe. Cinco anos pensando no que faria quando este dia chegasse.
— Daqui a pouco o ônibus chega na rodoviária — mudei o tom, olhando diretamente para o rapaz. — E a história fica ainda mais pesada. Mas o resumo de tudo, meu jovem, é que nunca devemos subestimar o orgulho de um homem que se acha um deus. Eu achei que podia enfrentar o Don. Achei que o amor de infância e os anos de sangue derramado pela família dele valiam alguma coisa.
A Queda
O rapaz ao meu lado nem piscava mais. O celular continuava esquecido no bolso de sua calça, e ele se inclinou um pouco para a frente, ignorando o barulho ensurdecedor do motor do ônibus que agora enfrentava a subida da serra.
— Mas me conta, moço — ele pediu, com a voz quase em um sussurro, como se temesse que os outros poucos passageiros no ônibus pudessem ouvir. — Como foi que as coisas desandaram de vez? Você disse que achava que tinha o respeito do velho.
Deixei a cabeça encostar no vidro frio da janela. O reflexo dos meus próprios olhos cansados me encarava de volta.
— Desandou, garoto, porque o amor nos deixa arrogantes. Nos faz acreditar que somos invencíveis. E no topo daquela arrogância, Antonella e eu cometemos o que o Don considerava o pior dos sacrilégios.
Ajustei a jaqueta, sentindo o ar condicionado fraco do ônibus falhar e deixar a cabine abafada.
— Foi duas noites antes de tudo ruir. O Don tinha viajado para São Paulo para fechar um acordo de contrabando de armas. A mansão estava vazia, exceto pelos seguranças da guarita externa, que eu mesmo controlava. Antonella me chamou. Não no pé de amora, não nos fundos da cozinha. Ela me abriu a porta dos aposentos dela, no segundo andar. Aquele quarto... parecia um palácio. Veludo, perfume caro, móveis de madeira maciça. Eu me sentia um intruso só de pisar no tapete. Mas quando ela me abraçou, o mundo lá fora desapareceu.
Senti um nó na garganta. Aquela noite tinha sido o ápice da minha vida, e também o começo do meu fim.
— Nós fomos um do outro aquela noite, garoto. Da forma mais pura e intensa que dois jovens que se amam desde a infância poderiam ser. Não existia o Don, não existia máfia, não existia o peso do meu trabalho sujo. Éramos apenas Vicente e Antonella. Na penumbra daquele quarto, enquanto eu acariciava os cabelos dela, tomei a decisão que mudaria tudo. Olhei nos olhos castanhos dela e prometi: "Chega de nos escondermos. Quando seu pai voltar, vou entrar no escritório dele pela porta da frente. Vou pedir a sua mão em casamento. Eu tenho dinheiro guardado, tenho o respeito dele na rua. Ele vai ter que aceitar". Antonella chorou. Ela teve medo, me implorou para a gente só pegar o dinheiro e fugir na calada da noite. Mas o meu orgulho de capanga jovem e destemido falou mais alto. Eu queria fazer as coisas do jeito "certo". Que imbecil eu fui.
O ônibus deu um solavanco forte ao passar por um redutor de velocidade. Estávamos quase entrando no perímetro urbano de Goiânia.
— Dois dias depois, o Don voltou. Lembro-me de cada detalhe daquela tarde. O céu estava cinzento, prenúncio de tempestade.
Eu vesti o meu melhor terno. Limpei o sangue dos nós dos meus dedos de uma cobrança que fiz no dia anterior e bati na porta de jacarandá do escritório dele. Quando ele mandou entrar, o ambiente estava pesado, denso com o cheiro de charuto cubano. Don Domênico estava sentado atrás daquela mesa imensa de mármore, lendo uns relatórios. Ele nem ergueu os olhos de imediato. "O que foi, Vicente? Algum problema com o carregamento do porto?", ele perguntou, com aquela voz calma e rouca que fazia qualquer homem tremer.
Respirei fundo, sentindo o peito apertar com a memória da humilhação.
— Eu engoli em seco, dei três passos à frente e disse: "Não, Don Domênico. O carregamento está seguro. Estou aqui por outro assunto. Pessoal". Ele ergueu os olhos de tubarão devagar. Tirei as mãos dos bolsos, mudei a postura e joguei as cartas na mesa. "Eu quero pedir a mão de Antonella em casamento. Eu a amo, Don Domênico. E ela me ama. Nós crescemos juntos nesta casa. Eu provei minha lealdade ao senhor, sangrei pela sua família, fiz o trabalho que ninguém mais queria fazer. Acho que posso dar a ela a vida que ela merece."
O rapaz do meu lado prendeu a respiração. "E o que o velho fez?"
— Ele não gritou, garoto. Se ele tivesse gritado, teria doído menos. Don Domênico soltou uma risada baixa, uma risada seca que ecoou pelas paredes do escritório como um tapa. Ele largou o charuto no cinzeiro de prata, cruzou os dedos em cima da mesa e me olhou com o mais puro desprezo que um ser humano pode direcionar a outro. "Você? Pedir a mão da minha filha?", ele disse, e cada palavra parecia uma lâmina. "Vicente, olhe para você. Você usa as roupas que eu pago. Você come a comida que sobra da minha mesa. Você limpa o sangue das minhas botas. Você achou mesmo que o fato de eu deixar você fazer o meu trabalho sujo te dava o direito de sentar à minha mesa?"
Apertei os punhos no banco do ônibus, os nós dos meus dedos ficando brancos.
— Eu tentei falar, tentei dizer que tinha dinheiro, que tinha homens que me seguiam, mas ele bateu a mão na mesa com tanta força que o cinzeiro saltou. "Cale a boca! Você é o filho da cozinheira! O filho da empregada morre na cozinha ou morre na sarjeta executando minhas ordens. Você não passa de um cão de guarda, Vicente. E cães de guarda não se casam com as filhas dos donos da casa. Eles dormem no quintal." Aquilo me destruiu por dentro. Todo o meu orgulho, toda a minha ilusão de que eu era alguém naquele submundo, ruiu em segundos. Mas o pior ainda estava por vir.
— Ele chamou os seguranças? — o rapaz perguntou, tenso.
— Pior do que isso. Ele acionou um plano que já devia ter na gaveta para o caso de eu me tornar inconveniente. Ele olhou para o relógio e disse: "Você acabou de selar o seu destino, garoto. Há um carregamento de mercadoria ilegal chegando na rodovia daqui a uma hora. Você vai escoltá-lo. Considere sua última missão". Eu saí daquela sala cego de raiva, com sangue nos olhos. Mas eu era profissional, fui cumprir a ordem. Quando cheguei ao local combinado com os caminhões, não havia mercadoria. Havia quatro viaturas da Polícia Federal com as sirenes apagadas, nos esperando em uma emboscada perfeita. Alguém tinha dado a nossa localização exata, os nomes, tudo. Don Domênico tinha me entregado de bandeja para os lobos.
Fiz uma pausa, olhando para as luzes da cidade que agora começavam a margear a rodovia.
— Eu tentei lutar, mas eram muitos. Fui jogado no chão, o rosto prensado contra o asfalto quente, algemado como um animal. Enquanto me jogavam no camburão, um dos policiais, que eu sabia que estava na folha de pagamento do Don, sussurrou no meu ouvido: "O Don mandou lembranças, Vicente. Ele disse que o seu lugar é na jaula". Fui julgado em segredo, sem direito a advogados caros, porque os advogados dos Moretti trabalharam para me afundar ainda mais, garantindo que eu pegasse a pena máxima por tráfico e associação criminosa. Cinco anos, garoto. Dezessete anos em uma cela úmida de segurança máxima, ouvindo o barulho das grades batendo e lembrando da risada daquele velho maldito.
O ônibus começou a reduzir a velocidade, entrando na rampa da rodoviária de Goiânia. O motorista puxou o freio de mão com um chiado alto de ar comprimido. Os passageiros começaram a se levantar, pegando suas bagagens de mão.
Eu me levantei devagar, ajeitando a jaqueta de couro.
O rapaz ao meu lado continuou sentado, me olhando de baixo para cima, com os olhos arregalados.
O rapaz assentiu com a cabeça, visivelmente tocado. "O senhor vai se encontrar com ela agora, não vai?".
— Vou — respondi, sentindo uma mistura de ansiedade e alívio correr pelas minhas veias. — O velho morreu. O império dele está caindo aos pedaços. E ela está lá, sozinha, esperando pelo garoto que colhia amoras com ela no jardim. Eu passei dezessete anos pagando por um crime que cometi e por muitos que não cometi. Mas a minha contagem regressiva termina hoje. Quando este ônibus parar, o filho da empregada vai voltar para buscar o que sempre foi dele por direito.
Me despedi do jovem e desci do ônibus pela janela vi uma leve sensação de familiaridade com aqueles olhos.
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